O empresário que vendia muito e devia mais ainda
Toda semana alguém senta na minha frente com a mesma frase: "Diego, a empresa vende bem, o movimento tá bom, mas o dinheiro some".
O dinheiro não some. Ele sai. Com data marcada, boleto emitido e, muitas vezes, com multa de brinde.
Em quase 20 anos de contabilidade, vi muita empresa boa passar aperto. Pouquíssimas por falta de cliente. A maioria por falta de calendário.
O empresário sabe de cor quanto o cliente X deve, há quantos dias está atrasado e qual desculpa usou da última vez. Agora pergunte quando vence o FGTS da folha dele. Silêncio. Depois um "isso aí é com o contador".
É com o contador calcular. Pagar, meu amigo, é com o caixa da empresa. E o caixa é seu.
Este texto é sobre o lado do financeiro que ninguém posta no Instagram: o contas a pagar. Sem glamour, sem dancinha, mas com potencial enorme de salvar o seu mês. E, com a reforma tributária batendo na porta, de salvar os próximos anos também.
Receber é a festa. Pagar é a ressaca. E as duas fazem parte da noite.
Existe uma cultura curiosa nas empresas brasileiras: cobrar cliente dá status, organizar pagamento dá preguiça.
O contas a receber tem planilha colorida, sistema integrado e um funcionário dedicado a ligar para inadimplente. O contas a pagar mora numa gaveta, numa pasta do e-mail e na memória do dono. A memória do dono, como sabemos, é a mesma que esqueceu o aniversário de casamento.
O problema é matemático, não moral. Cada real que entra só vira lucro depois que você paga o que deve. Se o recebimento está organizado e o pagamento não, você só sabe quanto dinheiro vai chegar. Não sabe quanto vai sobrar.
Um contas a pagar bem feito responde três perguntas antes de elas virarem problema:
O que vence nesta semana? Fornecedor, aluguel, folha, tributo, parcela do financiamento. Tudo no mesmo lugar.
Com que dinheiro eu pago? Saldo atual mais o que entra até o vencimento, e não o que você "acha" que entra.
O que dá para negociar? Prazo com fornecedor se negocia. Prazo com a Receita Federal, não.
Essa última diferença é a mais ignorada. Fornecedor atrasado liga, reclama e, no pior caso, corta o crédito. Tributo atrasado não liga. Ele cobra multa de 0,33% ao dia, até o limite de 20%, mais juros pela Selic, e ainda pode travar a sua certidão negativa justo na semana da licitação.
Ou seja: quem trata imposto como "conta que dá para empurrar" está pegando o empréstimo mais caro e mais burocrático do mercado. Sem nem ter pedido.
O calendário que nenhum empresário pendura na parede (mas deveria)
Vou fazer uma confissão de contador: o dia 20 é o dia mais movimentado do mês para o caixa de qualquer empresa com funcionário. E boa parte dos empresários com mais estrada ainda guarda na cabeça o calendário de dez anos atrás.
Quem tem mais de 40 lembra do FGTS no dia 7 e da GPS do INSS. Os dois mudaram. Desde a competência de março de 2024, com o FGTS Digital, o FGTS mensal vence no dia 20. E o INSS da folha agora sai em DARF, gerado pela DCTFWeb, também no dia 20.
Resultado: aquele respiro que existia entre o dia 7 e o dia 20 acabou. Ficou tudo empilhado na mesma semana.
Segue o mapa dos vencimentos mais comuns. Guarde, imprima, tatue se precisar:
| Tributo | Quem paga | Vencimento | Dia não útil |
|---|---|---|---|
| DAS do Simples Nacional | Optantes do Simples | Dia 20 do mês seguinte | Prorroga |
| DAS-MEI | MEI | Dia 20 do mês seguinte | Prorroga |
| DARF previdenciário INSS da folha, via DCTFWeb | Quem tem empregado ou paga pró-labore | Dia 20 do mês seguinte | Antecipa |
| FGTS FGTS Digital | Quem tem empregado | Dia 20 do mês seguinte | Antecipa |
| IRRF salários e serviços | Quem retém | Dia 20 do mês seguinte | Antecipa |
| PIS e Cofins | Lucro Presumido e Lucro Real | Dia 25 do mês seguinte | Antecipa |
| IRPJ e CSLL trimestrais | Lucro Presumido e Lucro Real trimestral | Último dia útil do mês seguinte ao fim do trimestre (abr, jul, out e jan), em cota única ou até 3 quotas | Já é dia útil |
| IRPJ e CSLL por estimativa | Lucro Real anual | Último dia útil do mês seguinte | Já é dia útil |
| ICMS | Contribuintes do regime normal | Definido por cada estado. Em SC, regra geral no dia 10 do mês seguinte, com exceções por atividade | Lei estadual |
| ISS | Prestadores de serviço | Definido por cada município, em geral entre os dias 10 e 20 | Lei municipal |
Prorroga: paga no próximo dia útil. Antecipa: paga no dia útil anterior.
Agora, as letras miúdas que fazem diferença:
Regime muda tudo. Quem está no Simples paga quase tudo numa guia só, o DAS. Mas ICMS por substituição tributária, diferencial de alíquota e antecipação podem vir em guias separadas, com prazos do estado.
Estado e município mandam no ICMS e no ISS. Uma empresa com filial em outro estado, ou que presta serviço em outra cidade, pode ter calendários diferentes rodando ao mesmo tempo.
Antecipa ou prorroga? Os tributos federais e o FGTS, em regra, antecipam quando o vencimento cai em dia não útil. O Simples prorroga. Errar a direção é o jeito mais elegante de pagar multa por um dia.
O calendário anual existe. FGTS e INSS do 13º salário, parcelas de parcelamentos, IPTU, IPVA e taxas anuais têm datas próprias. Seu contador tem essa agenda. Peça.
Regra de ouro: o contador apura e envia a guia. Mas quem coloca o vencimento no fluxo de caixa, com o dinheiro separado, é a empresa.
PMP, PMR e a arte de não financiar o seu cliente sem querer
Agora a parte que separa quem administra de quem só torce. Prometo explicar sem economês.
Fluxo financeiro: a caixa d'água da empresa
Pense no caixa como uma caixa d'água. Por um cano entra água: vendas recebidas. Por outro sai: fornecedores, salários, impostos, aluguel.
Fluxo financeiro é acompanhar os dois canos ao mesmo tempo, dia a dia. Não importa se no fim do mês entrou mais do que saiu. Se no dia 20 a caixa secou, a torneira não abre. E o boleto não aceita "no dia 28 eu tenho".
É por isso que empresa lucrativa quebra. O lucro está no papel, e o vencimento está no calendário.
PMR: quanto tempo o dinheiro leva para chegar
Prazo Médio de Recebimento é o número médio de dias entre a venda e o dinheiro na conta.
Vendeu à vista no Pix? PMR zero. Vendeu em 3x no cartão ou no boleto 30/60/90? O dinheiro chega, em média, uns 60 dias depois.
A conta simplificada: divida o saldo de contas a receber pelo faturamento do período e multiplique pelo número de dias. Se você tem R$ 200 mil a receber e fatura R$ 100 mil por mês, seu PMR está perto de 60 dias.
PMP: quanto tempo você tem para pagar
Prazo Médio de Pagamento é o espelho: quantos dias, em média, entre a compra e o pagamento ao fornecedor.
A conta é a mesma lógica: saldo de fornecedores a pagar dividido pelas compras do período, vezes o número de dias.
O problema não é o número. É a distância entre eles.
Imagine uma loja de materiais de construção. Ela compra do fornecedor com 30 dias de prazo e vende para o cliente em 3x, recebendo em média em 60 dias.
Tradução: durante 30 dias, a loja já pagou o fornecedor e ainda não recebeu do cliente. Quem bancou esse buraco? O caixa da loja. Ou o cheque especial, que é o caixa do banco cobrando aluguel.
E eu nem contei o estoque. Se a mercadoria fica 45 dias na prateleira antes de ser vendida, o buraco vira 75 dias. Isso tem nome: ciclo financeiro, a soma do prazo de estoque com o PMR, menos o PMP.
Ciclo financeiro longo significa que você está, na prática, emprestando dinheiro para o cliente. Sem juros. E muitas vezes pegando emprestado do banco, com juros, para conseguir fazer isso. Generosidade bonita, administração péssima.
Como aproximar os dois prazos
Negocie prazo com fornecedor antes de dar prazo ao cliente. Parcelou a venda em 4x? Tente comprar em 4x também.
Cobre o desconto do à vista com seriedade. Às vezes 3% de desconto no Pix sai mais barato que 75 dias de capital de giro.
Antecipe recebível com critério. Antecipação de cartão é ferramenta, não hábito. Se virou hábito, o problema está no prazo, não no caixa.
Gire o estoque. Mercadoria parada é dinheiro dormindo, e dinheiro dormindo não paga DARF.
Meça todo mês. PMP e PMR não são números de balanço anual. São termômetro.
Reforma tributária: quem não organizou o contas a pagar vai sentir no crédito
Se até aqui você pensou "isso eu resolvo depois", a reforma tributária veio cobrar a fatura do "depois".
A Emenda Constitucional 132/2023 criou o IVA dual: a CBS, federal, que substitui PIS e Cofins, e o IBS, de estados e municípios, que substitui ICMS e ISS. A Lei Complementar 214/2025 regulamentou tudo, e a LC 227/2026, sancionada em janeiro, ajustou pontos e instituiu o Comitê Gestor do IBS.
O cronograma, em português claro
2026: ano de teste. As notas destacam 0,9% de CBS e 0,1% de IBS, sem cobrança efetiva para quem cumpre as obrigações acessórias. PIS, Cofins, ICMS e ISS seguem como sempre.
2027: a CBS passa a valer para valer, e PIS e Cofins deixam de existir. O IBS segue simbólico, com 0,1%.
2029 a 2032: ICMS e ISS vão sendo reduzidos ano a ano, enquanto o IBS cresce.
2033: fim da transição. ICMS e ISS saem de cena.
Ou seja, durante anos você vai conviver com os tributos velhos e os novos ao mesmo tempo. Dois sistemas, dois calendários, um caixa só.
Por que isso cai no colo do contas a pagar
1. Crédito vai depender de pagamento. No modelo novo, a não cumulatividade é ampla: quase tudo que a empresa compra gera crédito. Mas a lógica é de crédito vinculado ao tributo efetivamente recolhido na etapa anterior. Comprar de fornecedor desorganizado, com nota errada ou imposto não pago, pode custar o seu crédito. O cadastro de fornecedores vira assunto tributário.
2. Split payment muda a hora em que o dinheiro chega. Pelo split payment, previsto na LC 214/2025, o tributo é separado no momento do pagamento, via Pix ou boleto, e vai direto para o fisco. Você recebe o valor líquido. Os testes de integração da plataforma começaram em 15 de outubro de 2026, e a implantação está prevista de forma gradual a partir de 2027.
Tradução para o caixa: aquele imposto que ficava uns dias na sua conta até o vencimento, e que muita empresa usava como capital de giro informal, vai deixar de passar por ela. Quem hoje paga fornecedor com o dinheiro do imposto do mês que vem vai descobrir que o truque acabou.
3. O PMP e o PMR ganham peso tributário. Se o crédito depende do pagamento e o débito sai na hora do recebimento, os prazos deixam de ser só financeiros. Eles passam a mexer no imposto que você efetivamente carrega no caixa.
4. Preço e contrato precisam ser revistos. Contrato longo, fechado hoje, vai atravessar a transição. Se ele não prevê como os novos tributos entram no preço, alguém vai perder margem. Normalmente quem não leu a cláusula.
5. O Simples Nacional não está imune. Empresas do Simples que vendem para outras empresas vão ter de avaliar se continuam no modelo tradicional ou se recolhem IBS e CBS por fora, para gerar crédito integral ao cliente. É decisão de margem, de preço e de caixa. Não dá para tomar no escuro.
A reforma não pune quem paga imposto. Ela pune quem não sabe o que paga, quando paga e para quem paga.
O plano para segunda-feira de manhã
Nada disso exige sistema caro. Exige método e um pouco de humildade para admitir que a gaveta não é um ERP.
Liste tudo o que a empresa paga. Fornecedores, folha, tributos, aluguel, empréstimos, assinaturas. Tudo, inclusive aquela mensalidade de software que ninguém usa.
Coloque cada vencimento numa agenda única. Planilha, sistema, quadro na parede. O formato importa menos que a disciplina.
Reserve o dinheiro dos tributos assim que vender. Imposto não é sobra do mês, é parte do preço. Trate como dinheiro de terceiros que está só de passagem.
Calcule PMP e PMR uma vez por mês. Se a distância entre eles cresceu, descubra por quê antes do banco descobrir por você.
Revise cadastro e contratos de fornecedores. Com a reforma, fornecedor regular vale crédito. Fornecedor bagunçado custa imposto.
Converse com seu contador sobre 2027. Não sobre a reforma em tese. Sobre o seu caixa, os seus contratos e o seu regime.
E agora é com você
Se você chegou até aqui e lembrou de algum boleto que vence amanhã, pode ir pagar. Eu espero.
Agora me conta nos comentários: qual tributo sempre pega a sua empresa de surpresa? Ou, se você é do time que ainda acha que o FGTS vence dia 7, confesse. Aqui é ambiente seguro.
Se este texto vai salvar o mês de alguém que você conhece, compartilhe. O empresário que lê sobre contas a pagar hoje é o que não chora por multa amanhã.
E acompanhe o blog. Toda semana tem mais bastidores da contabilidade, com o que a legislação diz e o que ninguém tem coragem de falar na reunião.
Diego Marocco Pulga é contador, sócio-fundador da Ínttegra Soluções Contábeis e Gestão Empresarial e MBA em Contabilidade e Direito Tributário.

Deixe um comentário